
O ano já tinha começado. Há seis meses para ser mais exata. As provas já tinham iniciado, os grupinhos devidamente formados, e eis que chega um aluno novo. Com as mãos no bolso, sempre no bolso; ele se apresentou na frente de toda a classe. A timidez estampada sem pudores em sua face. Ele disse apenas seu nome, rapidamente, sem pausar, seu nome completo em seguida. Só entendi o primeiro: Mohammed. Sim, era um nome diferente, para um garoto diferente. As outras aulas ele passou mudo, não disse uma palavra sequer, nem para responder a professora. Quando o sinal da saída bateu, por mais que eu fosse rápido, não consegui encontrá-lo. Fui para casa meio intrigada, alguma coisa nesse novo aluno tinha me intrigado, como se eu o conhecesse de algum lugar...Restava lembrar de onde. Contei para minha mãe no caminho o que tinha acontecido, e ela, como sempre, disse que ele tinha mexido comigo, que eu o achava bonito e essas coisas, que minha curiosidade não tinha fundamento. Resolvi acreditar, talvez não tivesse realmente. No outro dia, acordei mais cedo e me arrumei mais, não sei porque, mas o fiz. Tomei coragem quando cheguei no colégio e fui conversar com Mohammed.Ele estava sentado em um banco, sozinho, lendo um livro que não consegui identificar. Me sentei do lado dele e puxei conversa. Quando ele me respondeu, percebi seu sotaque diferente, nada brasileiro. O tempo foi suficiente para conversarmos bastante, e principalmente para descobrir a origem daquela maneira de falar. Era um garoto da Arábia Saudita, que veio sem ninguém para nosso país. Acabamos nos dando bem de cara. Conversamos mais no decorrer dos dias e das semanas.Minha mãe e minha irmã insistiam em dizer que eu estava apaixonada, eu desconversava logicamente. Começamos a ficar tão próximos, que depois de um tempo, até eu acreditava nisso.Mas não via nele nenhum interesse, pelo menos aparente, então preferi camuflar...Ele carinhosamente, me deu o apelido de Céu Azul, símbolo da calma, segundo ele, tão rara na região onde morava...Mais um dia terminara e como sempre, fomos juntos embora. Falei com ele a noite e fui dormir, depois de assistir o noticiário, coisa que nunca deixava de fazer. De repente, Mohammed começou a faltar às aulas, não atendia o telefone e não me recebia na pensão onde morava. Passaram-se duas semanas, assim, sem notícias e toda aquela ausência me fazendo mal. Depois de 17 dias, quando voltava para casa, passei em frente a um barzinho onde passava o noticiário da tarde. Parei para ver algo que me chamou a atenção . E a principal notícia dizia: " Encontrado o garoto que fugiu do seu país e da perseguição que sofria, ele estava no Brasil, estudando normalmente e levando uma vida normal. Com ele, a foto de uma garota a quem apelidava de Céu Azul e uma frase em árabe, que diria Eu sempre te amei...Depois de toda a repercussão do caso, de tantas especulações é encontrado finalmente aquele que seria o herdeiro de Osama Bin Laden". É eu realmente o conhecia de algum lugar...